
dESDE 2022, tenho organizado diferentes oficinas de modelo vivo, explorando desenho, corporiedade e espaços coletivos de processo criativo. Nesta aba tentei colocar assuntos pertinentes que tirei disso tudo.
Desenho de Observação Expandido
Uma das primeiras reflexo~es que tirei foi quanto à expectativa do desenho no meio desse processo. Desenhar em público pode trazer muita insegurança, desenho realista mais ainda, e só piora se o modelo é pessoas que conhecemos (e que não queremos deixa-las "feia").
Quando falamos de DESENHO DE OBSERVAÇÃO, logo imaginamos em uma reprodução milimétrica do ponto de vista que estamos olhando algo: para isso, tudo parece ter de ser perfeito, iluminação, forma, profundidade etc.
Visão remete ao o que nossos olhos captam, as ondas de luz que atingem nossas retinas. Observar vem do Latim OBSERVARE, “cuidar de, guardar”, é a junção de OB-, “sobre”, +SERVARE, “manter seguro, cuidar de”.
Acredito haver uma confusão com o uso da palavra Observação, neste contexto limitada à um desenho de "visão", em que tentamos -frustradamente- planificar o que vemos dentro do papel, reduzindo toda a multiplicidade perceptiva que temos do mundo.
Numa sessão de modelo vivo, até podemos dizer que todos vêem a mesma coisa (apesar de terem perspectivas espaciais diferentes), mas ninguém OBSERVA da mesma forma.
O uso da palavra Observar aqui remete a uma noção expandida de percepção: a forma que interpretamos as coisas no mundo afetam e são afetadas intrinsecamente pelo nosso repertório (momentosa que vivemos, estilos que gostamos, pensamentos que defendemos), e dentro de um desenho de observação, a coisa mais brochante possível seria jogar tudo isso fora, e tentar desenhar algo da mesma forma que uma câmera capturaria.
Oficinas Colaborativas de
ModeloVivo Colaborativos
Em 2022, começo a organizar oficinas semanais de modelo vivo colaborativo dentro da faculdade (UNESP), oficinas gratuitas e colaborativas, em que quem posa e quem desenha somos nós mesmos: Posa como quiser, Desenha como bem entender.
Ao assumir o caratér anti-profissional, as oficinas buscavam ser mais acessíveis para o publico amplo, podendo chegar a hora que conseguir, fazer o que estiver confortável e aproveitar o tempo e espaço do seu próprio jeito.

Pessoas não acostumadas com posar ficam poucos minutos paradas: isso reflete em desenhos curtos e uma maior experimentação (aquela noção de desenho de observação realista não faz sentido em uma pose de 30 segundos, o melhor que possamos fazer é meia dúzia de riscos, é pegar ou largar)
Pessoas não acostumadas com posar ficam poucos minutos paradas: porque não fazer poses em movimento? Aqui nasce a motivação de integrar ações perform´aticas dentro das poses, que vão desde danças a ações experimentais, com tempos livres ou não convencionais (por exemplo, uma pose em que o modelo joga moedas para cima, e que só acaba quando der 3 lados repetidos; ou o ato de fumar um cigarro, com a duração da queima do mesmo).
Desenho de Modelo vivo
é tudo igual?
No final de 22 vou atrás de organizar uma exposição trazendo todas essas reflexões e resultados tirados em coletivo por todos os participantes: provocando justamente a discussão de o que deveria vir a ser um desenho de observação.







Artistas participantes: Ailton Lima, Alrescha, Anuxa, bitra, Camila Longo, CK Ferreira, Daniel Yuan, Error., Flavushh, Gustavo Santana, Hanna Kilsztajn, henrique.exe, ike, luah, mly, Margore, Marina Socorro, Rafael Augusto, Se Suzuki, Tasso Micchetti, Valentina Scherer, Victoria Elme, Yasmin Có, Yumi Sakai
Modelo vivo especial: Giorgia Tolaini, Tadzio Veiga, Vini The Kid
Registros fotográficos: Érika Ozako, Ike, Leticia Sousa, Carol Gás, Afonso Felix, Giorgia Tolaini, Marina Socorro, Laila Szafran




ModeloVivo como vivência mais do que Oficina.
A partir de 2023, reuno colegas da faculdade para organizarmos as oficinas de forma coletiva, afim de institucionalizar essas atividades como algo constante para as próximas turmas. Criamos o curso de extensão moví, nos propondo a fazer parcerias com outros projetos de extensão de dentro e fora da UNESP e trazendo reflexões e aproveitamentos do que já acontece de forma expontânea nessas oficinas.
Um cuidado importante foi quanto à forma que os participantes se relacionam com essas oficinas. Nem todos conseguem chegar na hora certa (ou ficar até o final), também não é todo mundo que tem o pique de desenhar por 2h seguidas. A abordagem que trouxemos nessas oficinas se aproxima de uma vivência artística: vai de cada um o ritmo e intensidade que se entrega à oficina, uma vez que o processo criativo é multiplo e subjetivo.
Desenhar por mais tempo que a pose, juntar múltiplos modelos em um só, ou simplesmente ficar fofocando durante toda a duração da oficina são práticas válidas dentro de processos criativos (ainda mais colaborativos). Por isso, essas oficinas nunca impuseram o que cada um deve ou não fazer, ou como fazer (obviamente que, para pessoas não familiarizadas com posar e desenhar, trazemos provocações que os movem, mais do que conduzem)



Materiais
Uma preocupação que tenho desde o início é sobre o quanto que o "valor" de um material acaba por congelar o processo criativo de um artista. Só Deus sabe quantos papeis eu deixei de usar por medo de "gastar um material bom", Quantas canetas eu escolhi trocar a expressividade pelo cuidado, e usar de forma delicada para não estragá-la. Antes de termos verba, eu saia toda semana procurando papéis descartados pela faculdade, lápis e canetas perdidos e doações de almas generosas. No começo de toda oficina, convidava todes a gastar os materiais que estavam disponíveis, SPAMar desenhos sem medo, afim de buscar uma expressividade espontânea e flúida. Com o moví conseguimos verba para comprar materiais novos, riscantes incomuns e papeis grandes, dando prioridade para materias que nem todo mundo teria (ou se teriam usariam esses com precaução, mas os das oficinas era o momento de detona-los sem dó)
